• Soam as enxadas da resistência. O Barroso está de pé, em luta!

    Vimos convidar-vos para a terceira edição do Acampamento em Defesa do Barroso. 

    Desde o verão passado, a resistência contra os planos de mineração manteve-se ativa: muitas lutas se levantaram e muitas alianças se teceram. Este verão, queremos voltar a unir forças e a partilhar estratégias de resistência aos interesses económicos e políticos que pretendem destruir as montanhas pela promessa de lucro fácil.  

    Entre os dias 10 e 15 de Agosto de 2023, as portas da Quinta do Cruzeiro voltam a abrir-se. Como as águas que fluem nos canais, este ano também queremos inundar as ruas das aldeias com a nossa alegria, energia e vivacidade. Serão cinco dias de partilha com as serras, as águas, os montes e com a vida que queremos proteger.

    No Barroso, há cinco anos que lutamos contra a maior mina de lítio a céu aberto da Europa. Este ano, o governo aprovou o Estudo de Impacte Ambiental deste projeto mineiro. Fê-lo, apesar de reconhecer impactos negativos significativos para as populações, a biodiversidade das serras e a qualidade das águas. Fê-lo, impondo uma narrativa sobre a inevitabilidade da extração do lítio. Mas isto não significa que o governo está acima do poder popular e é por isso que esta decisão apesar de ser um dos últimos passos do aparelho burocrático, não significa que os de lá de cima podem vir e ditar as suas regras e leis a aqueles que são os verdadeiros guardiões/habitantes do território. Teremos por isso que nos unir cada vez mais para travar este ecocídio que é um ataque ao modo de vida rural.

    A narrativa — que pinta a mineração de verde e apresenta-a como solução única para a descarbonização — é uma narrativa falaciosa. Na realidade, aquilo que a União Europeia e os governos querem fazer — primeiro no Barroso, e depois em muitos outros territórios — é assegurar uma descarbonização que não ponha em risco os interesses da indústria automóvel e não coloque em causa o crescimento económico infinito. A promessa de lucro para alguns, e de cidades menos carbonizadas, esconde o sacrifício de territórios inteiros e a continuação da violência associada a uma política de mobilidade assente no transporte individual. 

    No Barroso, ninguém nos obriga a dizer que o cinzento é verde, que as minas são sustentáveis, ou que as empresas de mineração são os anjos do desenvolvimento. Ninguém nos obriga a entregar as serras, os rios, e a história de que somos guardiãs. É aqui, onde querem destruir o mundo verde do Barroso para salvar o mundo do crescimento infinito, que queremos confrontar e desconstruir a ideia de que a transição energética tem de passar pelo extrativismo desenfreado, pela transformação da rede da vida em recursos a esgotar, pela despossessão dos territórios rurais e pela procura incessante de lucros. 

    Aqueles que querem que o projeto avance tratam de convencer-nos que a decisão do governo marca o fim de uma luta. Mas nós sabemos que a guerra começa agora. 

    O Barroso não se calará perante a violência extrativista e as gentes barrosãs não aceitarão a licitação dos seus territórios às mineradoras. O Barroso é — e será — a linha da frente onde travaremos a destruição da vida em nome da sede de lucro.

    Esta luta local é um eco da resistência global. Se, perante os “objetivos estratégicos europeus”, conseguirmos travar aquela que seria a maior mina de lítio da Europa, abriremos precedentes de luta brutais. Sabemos disto, da mesma forma que as multinacionais e os governos o sabem. É por isso que esta luta é tão central. E é por isso que lutamos.

    No Acampamento, teremos não só atividades para informar e sensibilizar, mas também para fortalecer a nossa rede de resistência. Queremos muito contar-vos a nossa história, apresentar-vos as nossas gentes e mostrar-vos o imenso património histórico e natural que herdámos — e que lutamos para proteger.

    Sentimos um grito de revolta a pairar no território: o nosso e o vosso. A hora de lutar é agora. Como canta o nosso apicultor, Junta-te à luta, vamos vencer. Esta é a hora, não há tempo a perder!

    Sim à VIDA. Não às MINAS. 

    https://barrososemminas.org/

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  • Chiapas: A violência que os de cima pretendem ocultar

    24 junho, 2023 – Congresso Nacional Indigena

    No dia 8 de junho, organizações do México e de todo o mundo mobilizaram-se em 72 lugares diferentes do mundo para denunciar os ataques do grupo paramilitar ORCAO, a 22 de maio, contra as comunidades da base de apoio zapatista. Neste ataque, que durou cinco dias, o camarada Jorge López Sántiz foi ferido por uma bala, tendo ficado com o intestino gravemente afetado.

    As mobilizações foram a resposta organizada de milhares de pessoas que assistem alarmadas ao crescimento da violência contra as comunidades zapatistas e contra os povos de Chiapas e do México. O nosso apelo para parar a guerra chegou a muitos ouvidos e corações, mas não ao Estado mexicano e à sua classe política.

    De 19 a 22 de junho, este grupo paramilitar continuou o cerco às bases de apoio zapatistas. Com o consentimento ou a inação dos três níveis de governo, procuraram intensificar a guerra atacando com armas de fogo de forma contínua e coordenada em três aldeias zapatistas: Emiliano Zapata, San Isidro e Moisés y Gandhi, situadas no município de Ocosingo, Chiapas.

    O resultado: mais de 800 disparos de armas de fogo de alto e baixo calibre contra casas, escolas e clínicas autónomas, bem como a queima de terrenos onde trabalham as famílias da base de apoio zapatista.

    Se estas agressões fazem parte de uma estratégia de guerra paramilitar contra o movimento zapatista que remonta a 1994, inserem-se agora num contexto de violência crescente, fomentado pela crise económica em que vivem as aldeias não zapatistas; sem mais recursos, dependentes e subordinadas às regalias de programas sociais como o Sembrando Vida. Os povos não zapatistas vêem-se na necessidade de trocar dinheiro por hectares de terra, o que levou organizações paramilitares como a ORCAO a realizar mais de 100 ataques desde 2019 até à data, a fim de desapropriar territórios.

    Na sua conferência matinal de 23 de junho, o chefe do executivo federal, acompanhado pelo Secretário do Interior, pelo Secretário da Defesa Nacional e pelo Governador de Chiapas, minimizou os ataques contra as comunidades zapatistas e a situação grave e amplamente documentada no estado de Chiapas. Para além disso, desacreditou também as organizações e pessoas que defendem o território, os direitos humanos e as organizações que documentam e denunciam a violência.

    Perante esta situação, nós, as organizações abaixo assinadas, apelamos a:

    1.
    Denunciar a violência contra as comunidades zapatistas, contra os povos de Chiapas e do México, e enfrentar o negacionismo com que se dá impunidade aos grupos paramilitares.

    2.
    Apelar às pessoas de bom coração de todas as geografias para que apresentem queixas por escrito às representações diplomáticas mexicanas.

    3.
    Acompanhar, na medida das possibilidades de cada coletivo e de cada pessoa, as acções que serão anunciadas nos próximos dias, bem como organizar as nossas próprias acções.

    Atentamente,

    Espacio de Coordinación Nacional 

    Alto a la guerra contra los pueblos zapatistas. 

    Si tocan a un@, nos tocan a tod@s.

    https://www.congresonacionalindigena.org/2023/06/24/chiapas-la-violencia-que-arriba-pretenden-ocultar/

    Pronunciamiento nacional e internacional ante la agresión a la comunidad Moisés

    Aos povos do México e o mundo,
    As pessoas, coletividades e povos que defendem a Vida,
    A quem sente a urgência de agir diante um sudeste mexicano em chamas.

    Hoje, neste momento, México está no limite. Nesse limite que aparenta ser distante até que uma bala que chegando de cima detona a raiva do México de abaixo. O companheiro zapatista Jorge López Santis está no limite entre a vida e a morte devido a um ataque paramilitar da Organização Regional de Cafeicultores de Ocosingo (ORCAO), a mesma organização que tem atacado e hostilizado às comunidades zapatistas.

    Chiapas está à beira da guerra civil entre paramilitares e pistoleiros dos diversos cartéis que disputam os pontos e rotas de escoamento de drogas e grupos de autodefesas, com a cumplicidade ativa ou passiva dos governos estadual de Rutilio Escandón Cadenas e federal de Andrés Manuel López Obrador.

    O Exército Zapatista de libertação Nacional (EZLN), tem garantido a paz e desenvolvido seu projeto autônomo no seus territórios e tem tratado de evitar o choque violento com paramilitares e outras forças do Estado mexicano, ainda que sendo hostilizado, agredido e provocado constantemente. Desde final do século XX, e até hoje, o EZLN tem optado pela luta política através dos caminhos civis e pacíficos, apesar de suas comunidades serem baleadas, suas plantações incendiadas e seu gado envenenado. Apesar de não investir seu trabalho na guerra, e sim em construir hospitais, escolas e governos autônomos que beneficiam a zapatistas e não zapatistas, os governos desde Carlos Salinas até López Obrador tem tentado isolar, deslegitimar e exterminar o EZLN e as comunidades bases de apoio. Hoje, a poucos meses da luta do EZLN cumprir seus 40 anos, o
    ataque paramilitar da ORCAO fez com que a vida de um homem fique por um fio, o mesmo fio que segura a erupção do México de abaixo que já não aguenta mais a pressão sobre sua dignidade nem
    a guerra contra suas comunidades e territórios.

    O ataque da ORCAO não é um conflito entre comunidades, como seria caraterizado pelo ex-presidente mexicano Carlos Salinas e como com certeza pretenderá fazê-lo López Obrador. O ataque é responsabilidade direta do Governo de Chiapas e do Governo Federal. O primeiro por encobrir o crescimento de grupos criminais que tem feito que Chiapas passe de uma relativa tranquilidade a ser um foco sangrento de violência. O segundo por guardar silencio e passividade
    diante a evidente situação do sudeste mexicano. Por que ata a ORCAO às comunidades zapatistas? Porque podem. Por que o permitem o governo de Rutilio Escandón? Porque no Chiapas de cima, governar é banhar-se em sangue indígena. Por que guarda silêncio López Obrador? Porque o governador de Chiapas é cunhado do seu caro Secretario de Governo, Adan Augusto López, porque como seus antecessores, não suporta que um grupo de rebeldes seja o referente de esperança e dignidade, porque necessita justificar uma ação militar para “limpar” o sudeste e, por fim, poder impor seus megaprojetos.

    Da mesma forma, entendemos esse ataque como resultado das políticas sociais do governo atual, que dividem e corrompem destruindo o tecido social das comunidades e povos em nosso país e,
    em particular, em Chiapas. Olhamos com preocupação que programas como “Sembrando Vida” – com praticamente o mesmo orçamento que o do Ministério de Agricultura – e outros similares, propiciam a comunidades historicamente desapropriadas de suas terras e direitos serem utilizadas como mecanismos de controle político e moeda de troca para que organizações como a ORCAO acessem aos supostos benefícios outorgados por esses programas, à custa do roubo das terras recuperadas pelas comunidades autônomas zapatistas. Está claro para nós que não se trata de conflitos entre povos; é sim uma ação de contra-insurgência que visa destruir o EZLN e todas as
    comunidades e povos que continuam lutando por uma vida digna.
    Nós, que assinamos esta carta, o fazemos para convocar aqueles que acreditam que a dignidade e a palavra devem se levantar para parar o massacre que se pressagia; para convocar aos que concordam com o atual governo mexicano a abrir o coração para as injustiças que permeiam o presente nosso país, para além de suas afinidades ou simpatias políticas; para que nos encontremos nesta necessidade de agir com o propósito comum de deter esta atrocidade.

    Assinamos esta carta porque vemos a urgência de acabar com a violência paramilitar em Chiapas, porque não fazê-lo significa deixar o México mergulhar ainda mais nesta guerra sem fim que o está
    dilacerando. Exigimos justiça para Jorge López Santiz. Exigimos a dissolução absoluta da ORCAO. Exigimos que o governo de Rutilio Escandón seja investigado minuciosamente. Exigimos que o
    silêncio de López Obrador deixe de ser cúmplice da violência em Chiapas.

    Coletando as demandas apresentadas pelo Congresso Nacional Indígena, exigimos:

    1. Que seja garantida a saúde do companheiro Jorge e que lhe seja prestada toda a atenção necessária e pelo tempo necessário.
    2. Que se detenha o ataque armado contra a comunidade Moisés Gandhi e se respeite seu território autônomo.
    3. Que sejam punidos os autores materiais e intelectuais desses ataques paramilitares.
    4. Que sejam desmantelados os grupos armados através dos quais se mantem ativa e crescente a guerra contra as comunidades zapatistas. Exigimos também a libertação imediata de Manuel Gómez, base de apoio do EZLN, cuja prisão injusta não esquecemos. Com a CNI, alertamos que a guerra que eles declararam aos povos originários, guardiões da Mãe Terra, nos obriga a agir de forma organizada para frear a violência que cresce e restabelecer nossa conexão e cuidado com a Vida.

    Convocamo-nos a manifestar-nos nas ruas, embaixadas e consulados, centros de estudos e locais de trabalho, nas redes sociais; onde for possível e imprescindível, contra a violência militar, paramilitar e o crime organizado e em defesa da Vida.

    Nos convocamos e convocamos vocês a unir esforços para tecer um dia de ações deslocadas de 27 de maio a 10 de junho com uma ação coordenada nacional e internacional em 8 de junho.

    Contra a guerra aos povos zapatistas.
    Se tocam um@ de nós, tocam a tod@s

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  • Petição: Contra a invisibilidade, queremos festa no Centro da cidade do Porto

    Assina: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSc8KUGRZ4S0Ghngxj5AlYp01xtp5379E5eZufQIpRmrdMRi0g/viewform

    Petição – Contra a invisibilidade, queremos festa no Centro da cidade

    Este ano a MOP celebra 18 anos. A Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto é composta por vinte e um coletivos e associações da cidade que trabalham voluntariamente na luta contra a discriminação da comunidade LGBTQIA+ no nosso país. 

    A Câmara Municipal do Porto quer empurrar-nos para a Invisibilidade. Este ano, a MOP dirigiu ao Município dois pedidos de apoio para concretizar um arraial popular e associativo no final da 18ª Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto. Um pedido de estruturas, licenças e requisição do espaço Largo Amor de Perdição e um pedido de 10.000 euros para gastos de produção, artistas, wc’s públicos, etc. 

    O pedido financeiro foi negado após quase 3 meses de silêncio por parte do gabinete da presidência, alegando que o único apoio que dariam já estava a ser negociado com a Ágora – Cultura e Desporto do Porto. Após reunião com responsáveis da Ágora, vimos negados o acesso ao Largo Amor de Perdição para a realização da festa e renegociámos um novo espaço: a Alameda das Fontainhas. Uma vez assegurado o apoio estrutural de palco, tendas, camarim e possibilidade de alguns wc’s, reajustámos o nosso pedido de financiamento para 8.900 euros que, mais uma vez, foi negado. Foram alegadas questões de equidade para a não atribuição desta comparticipação financeira. Equidade para quem? Sabemos que no mesmo dia em que a Câmara Municipal do Porto negou este apoio financeiro à MOP, foi aprovado em reunião de executivo um apoio financeiro no valor de 300 mil euros para a Comic Con Portugal. Sabemos também que neste mesmo mandato o executivo aprovou um apoio financeiro de 600 mil euros ao festival Primavera Sound. Somos assim tão insignificantes? 

    Após os longos meses de ausência de resposta e a recusa ao apoio financeiro, ativistas que compõem a COMOP organizaram-se para fazer iniciativas de promoção da marcha e de angariação de fundos para o arraial. Com os fundos arrecadados e o apoio estrutural cedido pela Ágora – Cultura e Desporto do Porto era já possível organizar o arraial na Alameda das Fontaínhas.

    No entanto, para nossa surpresa, a 19 de junho, quase 15 dias antes da marcha, recebemos uma nova comunicação da Ágora: “Após análise interna, e apesar de sua proposta, informamos que, devido à quantidade de iniciativas que ocorrerão na cidade no mesmo fim-de-semana, não será possível realizar o arraial na Alameda das Fontaínhas. No entanto, considerando as reuniões realizadas, ainda estamos disponíveis para analisar a realização da iniciativa no Parque Municipal do Covelo”

    É com muito espanto e tristeza que recebemos esta notícia, uma vez que toda a negociação para a concretização deste arraial associativo estava completamente alinhada em todos os nossos contactos e reuniões. Conforme já tinha sido negociado, a Quinta do Covelo não reúne as condições para albergar um evento desta magnitude, além de apresentar várias limitações ao acesso e para pessoas com mobilidade reduzida. Além disso, a manifestação, que acontece no centro da cidade, tem que obrigatoriamente terminar neste arraial, pois será palco de leitura de manifestos e de outras intervenções associativas, reforçando assim a inviabilidade desta proposta. 

    Em relação ao argumento apresentado para recusa deste local, “quantidade de iniciativas que decorrem na cidade no mesmo fim-de-semana“, é com mais espanto ainda que o recebemos. Esta data, foi negociada em reunião com a Ágora no dia 10 de fevereiro de 2023 após termos sido informades que no dia 1 de julho iriam ser realizadas as tradicionais rusgas de São João e que obviamente iríamos respeitar. 

    Neste momento, temos um programa agendado com artistas da comunidade LGBTQIA+, compromissos com fornecedores de som, luz, bebidas, materiais de produção e logística e estamos a 15 dias da manifestação. Esta decisão põe em risco não só a realização do evento, mas também os nossos compromissos com fornecedores, artistas, públicos, bem como a nossa gestão financeira totalmente comparticipada pela comunidade da cidade do Porto. Além disso, o valor arrecadado com as vendas do Arraial contribui para dar resposta às dezenas de pedidos de apoio social que anualmente chegam aos nossos coletivos e associações.

    QUEREMOS VISIBILIDADE E ABRIR O ARMÁRIO DA CIDADE 

    Unides e determinades, convocamos a população, defensores da igualdade a se juntarem a nós nesta luta. Não podemos ficar calades diante da opressão e da marginalização. Vamos erguer nossas vozes, marchar e celebrar com orgulho, demonstrando que o amor e a diversidade são forças revolucionárias. O Porto é uma cidade diversa e inclusiva, e exigimos que as nossas autoridades ajam de acordo com esses princípios. Juntes, podemos criar uma sociedade mais justa, igualitária e acolhedora para todes. A nossa luta é pela libertação, pela visibilidade e pela verdadeira igualdade. O Orgulho é a nossa revolução! 

    Assina já esta petição para exigir ao município a realização do Arraial + Orgulhoso do Porto no centro da cidade, longe da invisibilidade!

    Não há cura para a nossa existência, só orgulho e resistência.

    Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho do Porto

    Anémona

    A Coletiva 
    A comunidade para o Desenvolvimento Humano
    Amplos – Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género
    Associação de Estudantes da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto
    Associação de Estudantes da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto

    CaDiv – Caminhar na Diversidade 
    Coletivo A Traça 
    Douro Bats 

    Habitação Hoje
    Feminismos Sobre Rodas
    Gentopia – Associação para a Diversidade e Igualdade de Género
    Greve Climática
    Kings of Kitéria

    Núclo Antifascista do Porto
    PolyPortugal 
    Porto Inclusive
    rede ex aequo
    Saber Compreender
    SheDecides
    SOS Racismo

    https://www.instagram.com/Ativismo.Em.Foco/

    A marcha do ano passado juntou 10.000 pessoas nas ruas do Porto.

    Não há cura para a minha existência, só orgulho e resistência! 🌈

    A 18ª edição da Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto é um apelo poderoso para que todas as pessoas se unam e reivindiquem os direitos que nos são negados. No dia 8 de Julho, as nossas vozes ecoarão pelas ruas, exigindo uma sociedade que nos respeite tal como somos, sem medo ou discriminação.

    Este ano, a nossa luta concentra-se na saúde, habitação, num futuro seguro e digno, com a decência que todas as pessoas merecem. Exigimos uma mudança real e efetiva.

    O orgulho é a nossa bandeira de resistência contra um sistema opressor que tenta apagar-nos, que nos diz que precisamos de ser “curados”. Não há nada de errado em sermos quem somos. Somos pessoas valiosas, com contribuições significativas para a sociedade, e merecemos ser tratades com respeito e dignidade. Acreditamos na força coletiva para desafiar e transformar um mundo que nos marginaliza.

    Às 15h, encontramo-nos na Praça da República, prontas para marchar. Juntes, iremos percorrer um trajeto que será revelado em breve, tens algum palpite? Uma coisa é certa: os nossos passos ressoarão com determinação e coragem. No final da marcha, teremos o privilégio de celebrar a inclusão na 3ª edição do “Arraial + Orgulhoso do Porto”. O local ainda é uma surpresa, mas podemos adiantar que será um espaço seguro, repleto de amor e celebração para todas as pessoas presentes.

    Convidamos-te, amigues, a juntarem-se a nós e a trazerem as vossas comunidades para pintar as ruas com as cores do arco-íris. Juntes, resistiremos àqueles que querem aprisionar-nos em moldes restritivos, num mundo que procura negar a nossa existência. Marcharemos, gritaremos e dançaremos, lembrando a todas as pessoas que o amor é um direito universal.

    A marcha não é apenas uma festa. É um manifesto, um ato político de resistência. É uma oportunidade para exigir igualdade, justiça e liberdade para todas as pessoas LGBTI+. Juntem-se a nós e façam parte desta luta.

    Bem-vindes à maioridade da Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto. Unides, somos invencíveis! 🏳️‍🌈🏳️‍⚧️

    https://www.instagram.com/Ativismo.Em.Foco/

    https://www.instagram.com/orgulhoporto/

    #orgulhoporto #portoLGBTI #OrgulhoPortugal #marchodoorgulhoPorto #orgulhoeresistencia

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  • Jujuy: Meios de comunicação comunitários e indígenas denunciam as acções da polícia de Morales contra o seu trabalho de imprensa

    Red Nacional de Medios Alternativos

    Os trabalhadores dos meios de comunicação alternativos, comunitários, independentes e indígenas denunciaram as acções do governo de Gerardo Morales em Jujuy, contra o trabalho comunicativo que têm vindo a realizar para tornar visível a brutal repressão desencadeada pela polícia da província.

    Abaixo partilhamos o comunicado de denúncia:

    COMUNICADO DA COMUNIDADE POPULAR, INDEPENDENTE. COMUNITÁRIOS E COMUNICADORES INDÍGENAS diante da grave denúncia de nossos companheiros da Rádio Chaski Jujuy FM 88.7

    Nós, trabalhadores dos meios de comunicação alternativos, comunitários, independentes e indígenas, queremos tornar pública a nossa denúncia contra a repressão, perseguição e assédio por parte da polícia da província de Jujuy, com o apoio do governo da província de Jujuy, liderado pelo governador Gerardo Morales.

    A província de Jujuy encontra-se numa situação de explosão social contra a imposição e o cerceamento de direitos. Neste sentido, os meios de comunicação alternativos, populares, comunitários e indígenas desempenharam e desempenham um papel fundamental desde antes e desde o primeiro dia da eclosão do conflito social. Nosso trabalho contribui para romper o cerco midiático em que nos encontravam os meios de comunicação da província, especialmente aqueles que recebem a publicidade oficial do governo da província de Jujuy.

    Queremos denunciar que estamos a ser vítimas de censura através da instalação de bloqueadores de sinal que nos impedem de realizar coberturas em direto em determinados locais, como o centro da cidade e as imediações da praça de Belgrano e da Assembleia Legislativa da província, e no bloqueio no cruzamento da estrada 52 com a estrada 9 em Puramarca. Queremos denunciar que, na brutal repressão em Purmamarca e San Salvador de Jujuy, fomos vítimas de registos fotográficos e fílmicos, de ferimentos causados por balas de borracha e pedras atiradas pela polícia, bem como de danos no nosso equipamento de trabalho, como câmaras e telemóveis.

    Queremos denunciar que, após a repressão de terça-feira, 20 de junho, em San Salvador de Jujuy, somos vítimas de perseguição. Após a feroz repressão na cidade de Jujuy, fomos perseguidos por policiais nas ruas, tivemos carros de patrulha e veículos com vidros fumê e sem energia estacionados na porta de nossas casas, com a clara intenção de nos amedrontar.

    Responsabilizamos o governador Gerardo Morales por qualquer atentado à integridade física dos comunicadores e suas famílias, dos meios de comunicação alternativos, independentes, comunitários e indígenas.

    Não é crime exercer o direito humano à liberdade de expressão, não é crime exercer a profissão de comunicador a partir de uma perspetiva diferente!

    Acompanha o conflito em Jujuy pelos meios alternativos aqui: https://linktr.ee/jujuyenlucha

    https://rnma.org.ar

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  • Évora Pride chegou para ficar: “Ninguém larga a mão de ninguém”,

    A 15 de Junho, um dia antes da Marcha, houve um ataque de Ódio contra uma exposição organizada pela Évora Pride. Três homens destruíram a exposição e fizeram um refém, que ameaçaram de morte.

    No entanto, o Pride foi celebrado por mais de 350 pessoas nas ruas, pela primeira vez em Évora. “Ninguém larga a mão de ninguém”, combatemos o ódio nas ruas, juntes.

    O Évora Pride foi alvo de um ataque declarado de Ódio que culminou na vandalização da exposição “Missiva de Amor e Ódio”, na Igreja de São Vicente.

    Se há coisa que esta ação demonstra é que este trabalho agora começado é necessário. A luta contra a homofobia, transfobia, bifobia, interfobia e todas as formas de discurso de ódio é urgente, válida e começa agora!

    O Évora Pride chegou para ficar nesta cidade, e contra todo o ódio estamos aqui para continuar a espalhar AMOR e LIBERDADE.

    Informamos que todas as atividades do Évora Pride irão decorrer dentra da normalidade conforme estão planeadas. Aliem-se a nós! Vamos mostrar que existimos, estamos, somos humanos, pessoas, e continuaremos a lutar por uma sociedade mais justa para todes!
    A Comissão Évora Pride

    15 de Junho. Comunicado do Évora Pride

    A Dezanove noticiou o acontecimento reportando que “a uma rádio local, Rolando Galhardas, da comissão organizadora, contou que durante a invasão os três homens fizeram refém o funcionário municipal que se encontrava no local, agredindo-o verbalmente, coagindo e ameaçando.”

    Já se passaram uns dias desde que terminou a 1ª Edição do Évora Pride, e que 1ª edição que foi. A cidade de Évora abraçou o movimento LGBTQIA+ e juntou-se a nós na nossa programação e aliou-se visivelmente à nossa 1ª Marcha de Orgulho, onde lado lado, caminhámos por uma Évora, um país, um mundo mais igualitário, mais livre, mais pleno e mais empático. Lutámos pelo direito a amar em plenitude, pelo direito à singularidade, pelo direito a cuidados de saúde, por espaços de pertença e por mais visibilidade.

    Este 1º Évora Pride ficou também, infelizmente, marcado, pelo ódio, pela LGBTQIA+FOBIA, pela ignorância e pela intolerância, reafirmando para toda a comissão e para toda a cidade a necessidade desta luta. Tentaram silenciar-nos e intimidar-nos mas aqui ninguém largou a mão de ninguém e juntos tornámo-nos um escudo impenetrável de amor e cor.

    Queremos agradecer profundamente a onda de amor a nível nacional que nos atingiu e todas as palavras de apoios e notas de repúdio que foram partilhadas em relação aos atos criminosos de vandalismo e ódio.

    A comissão Évora Pride termina esta edição de coração cheio e consciente do caminho que temos para fazer, assumindo o compromisso de continuar um trabalho de sensibilização, educação e empatia na cidade de Évora

    Sempre cá estivemos. E sempre cá estaremos.

    Ninguém larga a mão de ninguém

    A comissão Évora Pride

    A Dezanove escreveu que:

    Esta exposição aconteceu na Igreja São Vicente de Évora:
    “Actualmente, a Igreja de São Vicente, património da cidade de Évora, serve de sala de exposições temporárias, encontrando-se afastada do culto religioso”, como tal, a organização do Pride Évora confirmou que teve a autorização da Câmara Municipal de Évora para o evento.

    Confirmamos, infelizmente, nas redes sociais, os constantes ataques à comunidade LGBTQIA+, dizendo que foi o facto de terem realizado a exposição numa igreja, que levou a que o espaço fosse vandalizado, tal como se culpam as mulheres, que usam mini-saia, de serem assediadas e/ou violadas, é a velha expressão “estavam mesmo a pedi-las”.

    Na verdade, importa realçar que a destruição da exposição não aconteceu no escuro da noite, aconteceu às 13h00, do dia 15 de Junho, e destacamos a agressão do funcionário da Câmara, que estava presente e que foi ameaçado de morte, tendo sido feito refém, para que três homens destruíssem os artigos expostos.
    Como explicar estes actos de ódio e como existem, sequer, pessoas que o justificam?

    Évora: “Missiva de Amor e Ódio”Dezanove

    Entretanto, numa cómica reação, a Igreja disse que a mostra LGBT “parece pouco sensata e reveladora de pouco respeito pela sensibilidade de muitos cidadãos” ao mesmo tempo que lançou um comunicado em que “repudia liminarmente qualquer atitude de intolerância…”

    Notícia da Lusa:
    15 junho 2023

    Três homens vandalizam exposição sobre comunidade LGBT+ em Évora

    Quase todas as peças expostas ficaram destruídas. Os três homens responsáveis pelo ato colocaram-se em fuga, revelaram fontes da organização, da câmara e da polícia

    Uma exposição que propunha uma reflexão sobre o ódio em torno da comunidade LGBT+, em Évora, foi hoje vandalizada por três homens, que se colocaram em fuga, revelaram fontes da organização, da câmara e da polícia.

    A mostra integrava o programa da 1.ª Évora Pride, que está a decorrer, até domingo, na cidade alentejana, organizada em parceria pela Sociedade Harmonia Eborense, Núcleo Feminista de Évora e Associação Évora Queer.

    Em declarações à agência Lusa, Rolando Galhardas, da Comissão Organizadora da Évora Pride, indicou que três homens entraram na Igreja de São Vicente, propriedade do município e onde se encontrava exposta a mostra, e vandalizaram os trabalhos.

    “Fizeram ainda refém o funcionário da câmara que se encontrava no local. Foi agredido verbalmente, coagido e ameaçado”, referiu.

    Também em declarações à agência Lusa, o vice-presidente da Câmara de Évora, Alexandre Varela, condenou o que considerou a “tentativa de sobreposição, dominação e intolerância” em relação à comunidade LGBT+ (lésbicas, ‘gays’, bissexuais, transgénero e outros).

    “Foi um ato absolutamente condenável relacionado com intolerância, neste caso, aparentemente, de natureza sexual, que é, obviamente, abominável. Num Estado de Direito, não podemos tolerar situações destas”, afirmou.

    O autarca realçou que o caso “foi entregue às autoridades policiais e judiciárias”, salientando que, apesar de a PSP já ter estado no local, “é provável” que a Polícia Judiciária assuma a investigação, “tendo em conta a natureza dos ilícitos criminais”.

    Contactada pela Lusa, uma fonte do Comando Distrital de Évora da PSP limitou-se a adiantar que a exposição foi vandalizada e que a Polícia está a investigar o caso.

    Nas declarações à Lusa, Rolando Galhardas, da Comissão Organizadora da Évora Pride, disse que a exposição se intitulava “Missiva de amor e ódio” e reunia trabalhos de pintura, fotografia, escultura e gravura da autoria de vários artistas.

    “Ficou praticamente tudo destruído. Sobreviveram poucas peças. Foi uma tentativa declarada de nos assustar e causar medo através do ódio”, lamentou.

    A Évora Pride começou na terça-feira e, até domingo, estão exposições, concertos, performances, conversas, ações de sensibilização e uma marcha do orgulho.

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  • O ensurdecedor silêncio sobre a violência policial

    COMUNICADO: SOS RACISMO

    De acordo com a queixa que foi remetida ao SOS Racismo, Rubens Gabriel Prates, cidadão brasileiro, negro, a viver em Portugal, foi barbaramente agredido por elementos da PSP no passado dia 17 de novembro de 2022, tendo-nos sido reportados os factos seguintes:

    1. No referido dia 17 de novembro de 2022, pelas 9h30 da manhã, Rubens Prates encontrava-se na rua do Poço de Borratem, em Lisboa, aguardando a realização de uma entrevista de emprego, quando foi abordado por cerca de 6 agentes da PSP.

    2. Sem aviso e sem qualquer justificação, os referidos agentes agrediram violentamente o jovem Rubens, com pontapés e murros, e levaram-no para a esquadra situada na Rua da Palma.

    3. Dentro da esquadra, as agressões multiplicaram-se, ao som de várias injúrias:

    – “Não olhes para mim, preto de merda”;

    – “Estou aqui para acabar com a tua raça. Ouviste, preto de merda?”;

    – “Eu queria ir para o Brasil para limpar a tua raça, limpar gajos como tu, pretos de merda como tu que existem lá”;

    – Imagina se um preto de merda violasse agora a puta da tua mãe”;

    4. Durante todo este período, os agentes foram acusando Rubens de tráfico de droga – facto que não correspondia à verdade.

    5. Na esquadra, Ruben foi levado para a casa-de-banho, tendo-lhe sido ordenado que se despisse.

    6. Já com Rubens completamente nu, os agentes obrigaram-no a ler vários textos que lhe apresentaram num telemóvel, para o humilhar.

    7. As agressões continuaram, desta vez com recurso a cassetetes, tendo provocado lesões graves em Rubens.

    8. Rubens viveu cerca de 4h de terror na esquadra: humilhado, torturado, bárbara e covardemente agredido e alvo de insultos racistas.

    9. Depois deste período, os agentes decidiram efetuar uma visita a casa do Rubens. Já em casa deste, um dos agentes, encontrando umas luvas de boxe, vestiu-as e agrediu Rubens com vários socos.

    10. De regresso à esquadra, e perante as feridas evidenciadas por Ruben, um dos agentes afirmou o seguinte: “Sabe que essas marcas foram todas que caíste na rua, se disseres no Tribunal quem é que fez isso cuidado que eu sei onde a tua mãe trabalha, onde a tua mãe mora e onde a tua namorada estuda”.

    11. Nesse dia, Rubens seria transportado para o hospital, com graves lesões no corpo, tendo sido necessária a utilização de uma cadeira de rodas, pelo facto de não se conseguir levantar e andar.

    12. No dia 27 de novembro de 2022, entre as 20h e as 20h30 e quando Rubens regressava a sua casa, deparou-se com um dos agentes que o havia agredido, que ali se encontrava, sem farda.

    13. Ao ver Rubens, o agente telefonou para outros colegas, chamando-os ao local; minutos depois, chegaram mais dois agentes da PSP, um dos quais também tinha participado nas agressões do dia 19 de novembro.

    14. Rubens foi então revistado, forçado a despir-se na via pública e intimidado pelos agentes, que lhe fizeram várias perguntas sobre as queixas que o mesmo havia apresentado em Tribunal sobre as agressões a que fora sujeito.

    15. No dia 2 de dezembro de 2022, pelas 10h40, Rubens caminhava na Calçada do Combro, quando uma viatura da PSP parou à sua frente e um dos agentes o questionou: “Tu és o Ruben? Tu é que és o Ruben? Anda ali falar!”.

    16. Rubens foi então levado para um beco na Travessa da Condessa do Rio, e o referido agente, exibindo uma foto sua, perguntou se ele não era “o puto da foto”. Tendo confirmado que a foto era de Ruben, os agentes levaram-no de novo para a esquadra da PSP no Rato, sem qualquer justificação, onde permaneceu até às 12h.

    17. Agressões, tortura, abuso de autoridade, injúrias, discriminação racial, um rol extenso de violência perpetrada por agentes da PSP, inadmissível num Estado de Direito.

    18. Até à presente data, estes factos foram apenas relatados por um único órgão de comunicação social, o Setenta e Quatro (cfr. www. http://setentaequatro.pt/…/ve-la-nao-mates-o-miudo…).

    Há um silencio ensurdecedor quanto a este e muitos outros casos de violência policial sobre pessoas racializadas. Os factos são demasiados graves e deveriam motivar um interesse distinto por parte da comunicação social e de todos e cada um de nós.

    Portugal tem já um histórico vergonhoso quanto a casos de violência policial, sendo já tempo de reverter esta página de violência e de horror.

    O SOS Racismo condena veemente estes atos, exortando as entidades competentes – incluindo o Ministério da Administração Interna – a pronunciarem-se sobre esta situação e a instaurarem os processos de inquérito para apuramento da verdade e punição dos responsáveis.

    O SOS Racismo está solidário com o Rubens e toda a sua família, estando disponível para tudo o que for necessário, para que se faça Justiça!

    Apelamos ainda a todas as vítimas de violência policial que apresentem queixas junto do Ministério Público e que divulguem todos os atos de violência a que foram sujeitas – não estão, nem vão ficar sozinhas!

    21 de junho de 2023

    SOS Racismo
    https://www.sosracismo.pt/


    Notícia do Setenta e Quatro:

    PSP

    https://setentaequatro.pt/enfoque/ve-la-nao-mates-o-miudo-jovem-acusa-agentes-da-psp-de-o-terem-torturado-na-esquadra

    João Biscaia

    Ricardo Cabral Fernandes

    “Vê lá, não mates o miúdo”: Jovem acusa agentes da PSP de o terem torturado na esquadra

    Rubens Gabriel Prates entrou na esquadra do Martim Moniz, em Lisboa, por volta das 10 horas da manhã. Oito horas depois entrou no hospital com escoriações nos dois braços, dores agudas nas pernas e suspeita de fratura no braço esquerdo. O jovem de 18 anos acusa agentes da PSP de o terem torturado e apresentou queixa-crime no DIAP de Lisboa.

    25 Maio 2023

    Não sabia do filho há horas, até que no Comando Metropolitano da PSP, em Moscavide, lhe disseram que tinha sido transportado de ambulância para um hospital em Lisboa. Passava das 19 horas daquela quinta-feira quando Karina de Paulo entrou nas urgências do Hospital de São José. Dirigiu-se de imediato ao atendimento e, enquanto esperava, olhou em redor e viu o filho a um canto, sentado numa cadeira de rodas e com um polícia de pé ao seu lado.

    Algemado, Rubens Gabriel Prates tombava a cabeça sobre a mão direita, de olhos fechados, e enrolava com um dedo uma madeixa do seu cabelo encaracolado. A primeira intenção de Karina foi alcançá-lo, mas a presença de um agente fê-la parar num momento de dúvida. “Até ali ninguém me havia dado qualquer motivo para o meu filho estar na esquadra de Moscavide, então não sabia se podia ir falar com ele, se atrapalharia a situação dele.” Pediu desculpa e licença ao agente e agachou-se em frente ao filho de 18 anos.

    Perguntou-lhe se estava bem e Rubens respondeu-lhe com um olhar vazio. Estava medicado: os médicos deram-lhe 10 miligramas de olanzapina e 5 miligramas de diazepam, um antipsicótico e um ansiolítico, respetivamente, refere a sua ficha de urgência. A mãe pôs-lhe a mão no peito, para lhe sentir a pulsação, e reparou que lhe faltava o colar com o crucifixo que trazia sempre consigo. 

    Dependemos de quem nos lê. Contribui aqui.

    Quando Rubens percebeu que tinha a mãe à sua frente, conta Karina, despertou momentaneamente do torpor e começou a balbuciar, nervoso: “mãe, não faça nada — eles foram lá a casa, eles vão-me matar, eles vão matar a senhora”, chorando depois. Ao ouvir isto, o agente que guardava o jovem brasileiro levou-o para uma sala, onde o deixou sozinho, mas Pedro, amigo de Karina e uma das duas pessoas que a acompanharam, dirigiu-se ao agente para pedir explicações. 

    “Quando me aproximei para perguntar porque o estavam a esconder”, contou, “quase sacavam dos cassetetes”. Pedro reparou que os agentes pareciam agitados com a sua presença, de Karina e da outra testemunha, e as suas exigências em querer saber do estado de Rubens: “um deles começou a dizer-me que me afastasse, porque se sentia ameaçado; uma parvoíce”.

    A outra pessoa que acompanhou Karina ao São José foi Lucinda (nome fictício por medo de represálias). Viu-lhe “as mãos arranhadas e inchadas”, alguns “hematomas e sinais de pancada” na cara, “um penso num pulso” e os “olhos muito vermelhos”. Mas não havia qualquer marca de dentadas. Karina, sabendo apenas o pouco que lhe haviam dito, começou a suspeitar que algo estava errado.

    Afastaram-se dos polícias e Rubens recebeu alta hospitalar, mas o seu destino foi novamente Moscavide. Afinal, estava detido e teria de passar a noite nos calabouços da PSP até ser presente a um juiz.

    Uma hora antes, quando foi à procura do filho no Comando Metropolitano da PSP, uma agente disse a Karina que o filho tinha saído dali de ambulância por se ter “automutilado”. “Não lhe posso dizer nada, mas a senhora ainda se vai rir”, ter-lhe-á dito a agente. “O seu filho mordeu-se”, explicou, fazendo um gesto de quem morde a própria mão. “Ela [a agente] estava desconfortável a falar comigo.” Karina ligou para o Hospital de Santa Maria e disseram-lhe que ninguém com o nome do filho tinha dado entrada. Restava o São José.

    Rubens deu entrada no hospital com “escoriações em ambos os membros superiores”, queixas de dores nos membros inferiores e uma tala no braço esquerdo.

    A história da mordida não batia certo e Karina permaneceu no São José à procura de respostas. Não as encontrou. Tentou falar com a psiquiatra que atendeu o filho, mas sem sucesso. Conseguiu falar com o urologista que lhe deu a alta, “mas ele fez-se de ignorante e nem me conseguia olhar nos olhos”. “Disse que não podia fazer juízos de valor sobre a natureza das lesões e que só trata as pessoas”, afirmou Karina. O médico ter-lhe-á dito que apenas verificou que Rubens “tinha escoriações nos braços e que tinha chegado com uma tala num deles, mas que não havia fratura”.

    A ficha de urgência confirma que Rubens deu entrada no hospital às 18h48 com “escoriações em ambos os membros superiores”, queixas de dores nos membros inferiores e com uma tala no braço esquerdo, “colocada por bombeiros”. Um exame de raio-x confirmou que não havia fratura, mas no relatório é diagnosticada uma “dor aguda com trauma”.

    Antes de ser visto por um médico da pequena cirurgia, Rubens foi observado por uma médica psiquiatra. A razão de o levarem ao hospital terá sido “agitação psicomotora com instabilidade emocional”. A ficha de urgência alega que Rubens se tornou agressivo dentro da cela em Moscavide e que se “automutilou com latas”, contrariando a versão de que se teria mordido. Na mesma ficha, os médicos relatam ter-lhe feito uma “limpeza e desinfeção de feridas”, dando-lhe alta às 20h48 de 17 de novembro de 2022. Rubens passou precisamente duas horas no hospital.

    Sem conseguir obter respostas, Karina desistiu e, acompanhada por Pedro e Lucinda, regressou a casa. Ao chegarem, viram roupa espalhada pelo chão, plantas desenterradas dos vasos, loiça fora do sítio: toda a pequena casa, uma subcave em Arroios, próxima do Banco de Portugal, virada de pantanas. Só no dia seguinte, depois da audiência do filho em tribunal, é que descobriu o que tinha acontecido: Rubens tinha sido detido entre as 9h30 e as 10 horas, levado para a esquadra do Martim Moniz, supostamente agredido, forçado a autorizar uma busca a sua casa, levado para Moscavide e depois para o hospital, onde o encontrou. Para Karina, passou “um dia de inferno, um dia de surra”.

    Como o dia começou

    Esperava-se um dia ameno em Lisboa. Era 17 de novembro de 2022, uma quinta-feira, e, apesar de se estar a meio do outono, o céu não tinha nuvens. Não havia muita movimentação no Poço do Borratém, uma espécie de largo entalado entre a Rua da Madalena e a Praça do Martim Moniz, de costas para o Beco dos Surradores, porta velha para a Mouraria e a colina do castelo. As descargas das encomendas para os restaurantes começaram mais tarde, as lojas sob as arcadas ainda estavam para abrir e a fila para entrar no elétrico 28 não chegava até ali. Eram 9h30.

    Rubens Gabriel Prates chegou demasiado cedo ao Gabinete de Empreendedorismo Social da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e enrolou um cigarro. Ia assistir a uma sessão de esclarecimento e ter uma entrevista de emprego, em grupo, reencaminhado pela Santa Casa da Misericórdia, para fazer uma formação como técnico de armazém para a Jerónimo Martins. Era às 10 horas, mas às 9h30 ele já estava à porta. O Gabinete confirmou a marcação ao Setenta e Quatro.

    A meio do cigarro, o jovem reparou numa carrinha da PSP que passava em marcha lenta na via de sentido único. A carrinha parou à sua frente e os seis agentes (cinco homens e uma mulher) que iam dentro dela “ficaram muito tempo” a olhar para si. A porta lateral abriu-se, deslizando, e os agentes vieram na sua direção. Deixou cair o cigarro, encostou as costas à parede e levantou os braços, com o telemóvel numa das mãos. “Estás aqui a vender droga, né?”, ter-lhe-á perguntado um dos agentes. “Não, estou aqui para uma formação”, respondeu-lhe.

    Quando deu por si já estava de cara no chão e mãos atrás das costas, a ser algemado. Disse que tinha com ele a carta com a convocatória para a formação e algumas tiras de haxixe, “para o meu consumo”. Mas ninguém o revistou nem lhe deu voz de detenção. Rubens não terá resistido, mas afirma ter sido pontapeado no corpo e pisoteado na cara, quando já estava imobilizado e algemado. O seu telemóvel caiu ao chão e um dos agentes tê-lo-á pisado e pontapeado para debaixo de um automóvel estacionado.

    “Agarraram-me e meteram-me para dentro da carrinha”, afirmou Rubens. “Nas traseiras, atrás dos bancos, comecei a gritar, ‘o meu telemóvel, o meu telemóvel!’ e um dos agentes foi buscá-lo e guardou-o”. Assim que entraram na carrinha para seguir caminho, relatou, todos os agentes retiraram do peito as respetivas identificações, num ruído uníssono de velcro a ser arrancado. Um outro, o que mais perto dele estava, vestiu luvas.

    Assim que entraram na carrinha, todos os agentes retiraram do peito as respetivas identificações, segundo o jovem, num ruído uníssono de velcro a ser arrancado.

    Cinco dias depois, a 22 de novembro, a PSP desmantelou uma rede de tráfico de droga no bairro da Mouraria, tendo detido 13 pessoas, segundo a Lusa. Além de milhares de doses individuais de heroína, cocaína e haxixe, a PSP declarou ter apreendido mais de sete mil euros e dez armas proibidas. Apesar dos “contínuos esforços policiais e judiciais”, explicou a PSP à agência noticiosa, a Mouraria “dispõe de características geográficas e socialmente enraizadas que potencia ressurgimentos contínuos da venda de droga”. 

    O Setenta e Quatro falou com moradores e comerciantes daquela zona que afirmaram que a Rua de São Pedro Mártir, que desemboca no Beco dos Surradores e vai dar à esquina onde Rubens esperava pela entrevista de emprego, é um dos principais pontos de compra e venda de droga na Mouraria. Nos dias que antecederam a operação policial, disseram os moradores e comerciantes, a vigilância (e passagem) da polícia aumentou naquela zona. 

    Até aqui, o caso de Rubens é semelhante a um outro, que aconteceu na primeira quinzena de janeiro deste ano, na Damaia, em Lisboa. A polícia entrou no bairro na sequência de uma operação por causa de uma mota roubada e Marcos, jovem negro de 17 anos, estava à porta da casa de um amigo. Um agente tirou-lhe o telemóvel e, depois, com outros dois, atiraram-no ao chão. Foi detido e, em declarações à CNN Portugal, disse tê-lo sido por simplesmente estar no lugar errado à hora errada.

    Foi no curto caminho entre o Poço do Borratém e a esquadra na Rua da Palma, que, além de continuarem as agressões, começaram os insultos. Encolhido a um canto, tentando perceber quem eram aqueles agentes, Rubens terá olhado para um polícia mais próximo de si e que, reparando, lhe terá dado um soco na cabeça, repreendendo-o: “Não olhes para mim, preto de merda”. Rubens afirma que nas horas seguintes esse agente foi o “mais excitado” em lhe bater, o mesmo que lhe chutou o telemóvel para longe, continuando no caminho até à esquadra a dizer coisas como: “estou aqui para acabar com a tua raça. Ouviste, preto de merda?”.

    Assim que chegaram à esquadra, relembrou Rubens, insistiram na mesma pergunta: “O que é que estavas ali a fazer? Estavas a vender droga?”. Entre calduços, chapadas e empurrões, levaram-no para uma sala enquanto acediam à sua informação cadastral. Para Rubens, tanto as injúrias como as agressões se tornaram mais violentas assim que os agentes viram o seu cadastro no computador. Passou os primeiros quatro meses de 2022 em prisão preventiva, no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), por roubar três telemóveis e estava com pena suspensa por três anos e quatro meses. Foi preso quando tinha 17 anos e fez 18 numa cela.

    O tom dos agentes mudou: “onde é que está a droga, preto do caralho?”. “Começaram a dizer que eu era traficante e a bater-me”, disse Rubens. Chapadas na cara, na nuca. Injúrias racistas. “Só vais sair daqui quando me arranjares 50 gramas, ouviste?”, terá dito um dos agentes. “Ou isso ou vais arranjar alguém que traga”, continuou. “É bom que te chibes, preto de merda”. Enquanto isso, disse Rubens, chegou um outro agente, com uns papéis na mão, que indagou calmamente: “mas já revistaram o gajo?”. 

    Só aí deram com a droga que Rubens já havia informado ter em sua posse, afirmando ao Setenta e Quatro que a tinha “acabado de comprar na Praça da Figueira, para levar depois para casa, daí estar sem dinheiro comigo”. No auto de apreensão ficou registado que trazia consigo oito tiras de haxixe, cerca de 15,3 gramas antes de feitas as perícias — bem acima do limite legal de 5 gramas, definido como o equivalente ao consumo de dez doses diárias. A quantidade que possuía valia por volta de 100 euros e, ao não ter dinheiro consigo, não configura crime de tráfico de droga. Se o tom já havia mudado, foi o trato que piorou daí em diante.

    Bateram-lhe nas pernas, sobretudo nas coxas, lembrou. E retomaram as injúrias racistas: “começaram a dizer: ‘não tomas banho? Tens essa cor de merda, devias limpar essa cor de merda’”.

    Levaram-no para a casa-de-banho e ordenaram que se despisse. Rubens ficou completamente nu e os agentes repararam numa tatuagem que tem no flanco direito do tronco: um palhaço, uma versão do Joker com as onomatopeias “Ha! Ha! Ha!” em redor da figura. Um dos agentes sacou do seu telemóvel, digitou algo na barra de procura do Google e, com o ecrã em frente à cara, pediu-lhe que lesse em voz alta o que lá estava escrito. Leu: no Brasil, dentro do crime organizado, tatuar um palhaço pode significar que o tatuado já matou um polícia.

    “Quando acabei de ler a frase começaram a bater-me com cassetetes nas costelas”, afirmou Rubens. “Encolhi-me com dores e caí no chão.” Bateram-lhe nas pernas, sobretudo nas coxas, lembrou. E retomaram as injúrias racistas: “começaram a dizer: ‘não tomas banho? Tens essa cor de merda, devias limpar essa cor de merda’”. No chão, Rubens reparou que alguém se aproximava, porque a violência e os insultos pararam subitamente por momentos.

    Seria “um superior”, segundo ele, que terá olhado para aquela situação por um momento e retomado o seu caminho sem dizer nada. Tornaram a bater-lhe, afirma, e foi aí que começou a gritar. Diagnosticado com transtornos de ansiedade ainda em criança, Rubens diz que começou a ficar indisposto, a hiperventilar e a chorar. “Para de chorar e veste-te, cabrão”, terá ordenado um dos agentes.

    Enquanto se vestia, continuaram as agressões: socos e cacetadas nas costelas. Voltou a cair. Rubens terá dito várias vezes que não conseguia respirar. Decidiram bater-lhe na cara enquanto ordenavam que se calasse, segundo Rubens, que se lembra de cuspir sangue e de ouvir um dos agentes dizer: “vê lá, não mates o miúdo”. Já vestido e novamente algemado, foi “arrastado para uma sala”: “estavam a bater-me muito nas costelas e nas pernas, mal conseguia andar”.

    No caminho para a tal sala, se vacilava das pernas voltavam a bater-lhe, relembrou. Então, deixou tombar o corpo. “Doía-me tudo e só conseguia chorar de tristeza e de raiva”. Não se quis mexer mais. Arrastaram-no pelas algemas, sentaram-no direito numa cadeira e um agente ter-se-á sentado à sua beira: “obrigou-me a desbloquear o meu telemóvel e mandou-me mandar mensagem ao meu dealer a dizer que queria 50 ou 100 gramas”. Não o fez.

    Um dos agentes, disse Rubens, começou depois a ver o seu perfil no Instagram, onde havia publicações alheias que incluíam legendas como “ACAB” e “1312” e pessoas a fumar canábis, a exibir armas e a ouvir drill, trap e gangsta rap. Passou depois para as suas próprias publicações: vídeos a fumar em casa, fotografias de canivetes e armas de ar comprimido.

    Foi então que um outro agente lançou uma ideia para cima da mesa: “Se não tens a droga aqui, é porque está em casa”, afirmou um deles. Rubens respondeu que não havia droga em casa. “Vamos a tua casa e vamos levar os cães”, acrescentou um outro. “Não vamos, a minha mãe não está lá”, retorquiu Rubens. “Vais deixar-nos ir a tua casa”, disse um dos agentes.

    Rubens continuou a recusar, mas os polícias insistiram e puseram-lhe um papel à frente para ele assinar, um termo de autorização de busca domiciliária, a que o Setenta e Quatro teve acesso. Já estava preenchido, bastava assinar. Se assinasse, Rubens autorizava os elementos daquela corporação a “passar busca domiciliária à minha residência, […] com observância das formalidades legais”. “Vais connosco, não vai acontecer nada”, ter-lhe-á dito um dos agentes, apertando-lhe a nuca. Rubens disse que não assinava. Puxaram-lhe as orelhas com brusquidão.

    “Já te disse que se me arranjares 50 gramas que te mando embora”, terá voltado a dizer um dos agentes. Perante a inação de Rubens e a recusa em assinar a autorização, colocaram-lhe as mãos estendidas em cima da mesa e começaram a bater-lhe com o cassetete em cada uma, à vez. “Não vais assinar, cabrão?”, dizia um dos agentes, segundo Rubens. “E dava-me com o cassetete nas mãos”, diz Rubens, reconstituindo os gestos das pancadas ao Setenta e Quatro. Repetia a pergunta, batia-lhe nas mãos e ria-se, segundo o jovem. Rubens, então, assinou o papel.

    Antes de saírem da esquadra em direção àquela que era então a sua habitação, na rua António Pedro, a pouco mais de um quilómetro de distância da 4ª Esquadra da PSP, Rubens foi constituído arguido e assinou um termo de identidade e residência. De acordo com a informação horária impressa nos documentos, já passava das 12h30. Rubens confirma: “trouxeram-me até casa, algemado, era meio-dia e tal, e entraram com a minha chave”.

    Acompanhado por três agentes, sem cães, Rubens desceu as escadas até ao apartamento na subcave. Foi mandado ficar no limiar entre a escadaria e a pequena cozinha que era também sala de estar e de jantar. “Vá, diz lá onde é que está a droga”, terá exigido um dos agentes a Rubens, algemado, a meio de duas chapadas. “Esse [agente] ficou comigo”, disse Rubens, “e os outros foram revistar a casa”. “O mais agitado, o que me agredia mais, andava de um lado para o outro a desarrumar tudo, a atirar coisas para o chão.” 

    Abriram gavetas e armários, voltaram colchões e almofadas, desenterraram plantas de dentro dos próprios vasos e voltaram a lá metê-las, mas “nos vasos errados”, disse Karina com um suspiro de incredulidade. Pendurada na parede do quarto de Rubens estava uma máscara de palhaço que Rubens afirma usar no Halloween — ele, diz, gosta muito de palhaços.

    Os agentes encontraram dentro de um armário um par de luvas de boxe, desporto que Karina pratica quando tem tempo. “Gostas de lutar, é?”, terá perguntado um dos agentes ao jovem brasileiro, enquanto colocava a luva direita na mão respetiva. “Começou a dar-me socos no estômago e nas costelas”, assegura Rubens. “Então não vais dizer onde está a droga?”, continuava o agente. “E dava-me. Mas nunca na cara”. 

    O jovem brasileiro e os três agentes saíram pela mesma porta por onde entraram. Segundo Karina, alguns vizinhos queixaram-se do barulho ao senhorio e a mãe de Rubens teve de lhe explicar a situação, receosa de ser despejada. No retorno à esquadra de mãos vazias, os agentes terão regressado à abordagem tomada no início: insistiram para que Rubens ligasse aos seus amigos para pedir 50 gramas de haxixe. Entre chapadas, o agente que mais o agredia ter-lhe-á dito que, se estivesse no Brasil, iria à sua “favela exterminar todos os pretos como tu”.

    Ao sair do Martim Moniz em direção a Moscavide, um dos agentes terá segredado ao ouvido de Rubens: “Puto, sabes que essas feridas todas, esses arranhões, foste tu que caíste, certo?”.

    O mesmo agente terá arrancado um colar de ouro que Rubens trazia ao pescoço, deixando um visível arranhão no peito. No colar pendiam dois pingentes: um crucifixo e uma medalha com as iniciais de Rubens e da sua namorada e a data em que começaram a namorar. O agente terá entortado a medalha e partido o crucifixo. “Estava a tentar fazer-me tortura mental”, explica o jovem. Funcionou: Rubens começou a chorar de frustração e de raiva, sem força para mais.

    Um outro agente terá dito àquele para parar com aquilo, “que já estava a exagerar”, contou Rubens. Depois, “chegou um superior a dar ordens e com uns papéis para eu assinar”. Seria o auto de apreensão, o auto de constituição de arguido e o termo de identidade e residência. Rubens iria ser transferido para Moscavide, para os calabouços, onde passaria a noite detido esperando audiência em tribunal na manhã seguinte.

    Rubens calcula que tenham passado mais de cinco horas entre a detenção e a entrada na carrinha da PSP que o levou para a esquadra em Moscavide. Ao sair da esquadra do Martim Moniz, “um dos agentes — o mesmo que proferira as injúrias de cunho discriminatório e que mais vezes o agredira”, segundo a queixa-crime apresentada na DIAP de Lisboa, terá apertado Rubens na nuca e segredado ao seu ouvido: “Puto, sabes que essas feridas todas, esses arranhões, foste tu que caíste, certo?”. E terá continuado, em tom de ameaça: “se eu souber que fizeste queixinhas, tu tem cuidado que eu sei onde moras, onde a tua namorada estuda e onde a tua mãe trabalha”.

    Metido de novo na carrinha, Rubens foi levado para Moscavide. Lá chegados, disse o jovem brasileiro, um dos agentes da esquadra de Moscavide, ao ver o estado em que chegava, perguntou-lhe se precisava de ir ao hospital, mas um dos agentes do Martim Moniz respondeu por ele e perguntou a Rubens: “não precisas, pois não?”. Com medo, o jovem disse que não. Foi metido numa cela e começou a chorar.

    Rubens crê que a sua reação terá chamado a atenção dos agentes daquela esquadra, que foram verificar as suas lesões e terão afirmado que haveria que “relatar aquilo, não está nos papéis”. Tiraram fotografias às suas lesões, segundo o jovem. Um dos agentes de Moscavide terá tentado tranquilizar Rubens: “não te preocupes que ninguém te vai maltratar aqui”. Ficou na cela, dorido e a pedir para falar com a mãe. Tentou dizer aos agentes que o guardavam que os seus colegas da esquadra do Martim Moniz o tinham agredido. Voltou a pedir que telefonassem para a sua mãe. Foi ignorado, disseram-lhe que, segundo os agentes que o levaram, ele já tinha feito uma chamada.

    Rubens encheu-se de raiva. “Tudo me doía, mas a raiva era maior”. Arrancou o lavatório de alumínio da parede da cela e começou a bater com ele nas paredes e a gritar “liguem à minha mãe” e “vou-me matar se não me tirarem daqui”. Gritou que tinha esquizofrenia, “para pararem de me ignorar”. Só aí ligaram à sua mãe, dizendo-lhe que o filho estava na esquadra detido. De acordo com os registos no telemóvel de Karina, a chamada chegou às 15h36, cerca de seis horas depois de Rubens ter sido apanhado no Poço do Borratém.

    No seguimento, os agentes daquela esquadra terão chamado os bombeiros de Moscavide que levaram Rubens para o Hospital de São José. Do caminho até lá, Rubens lembra-se de um bombeiro que lhe tratou das feridas e lhe pôs uma tala no braço direito, tal como refere a ficha médica do São José. No hospital foi visto por três médicos, fizeram-lhe um raio-x, desinfetaram-lhe as feridas e, duas horas depois, regressou aos calabouços de Moscavide. Foi apresentado a um juiz no dia seguinte, sexta-feira.

    Com base em dados da IGAI, de 2021, houve 1.174 denúncias de maus-tratos e abusos por polícias e guardas prisionais, o mais elevado desde 2012. Destas, 565 foram contra agentes da PSP.

    Duas semanas depois de Rubens ser detido, o coletivo Vozes de Dentro, que se dedica a apoiar reclusos, convocou um protesto “contra a tortura policial” para 3 de dezembro, no Martim Moniz. “Este é o caso de outro espancamento e outra detenção que é apenas um exercício de poder violento, racista, xenófobo, patriarcal”, lê-se no comunicado do coletivo. E denunciam médicos coniventes com a violência e “com a tortura aplicada pela polícia, que não escrevem um relatório digno, nem explicam à mãe em que condição se encontra o seu filho espancado e novamente detido”.

    O Setenta e Quatro questionou repetidas vezes a PSP, mas esta não deu qualquer resposta até à publicação deste artigo. Foi-lhe perguntado se tinha conhecimento de uma queixa-crime por abuso de autoridade, ofensa à integridade física, tortura e perseguição, entre outros crimes, levantada contra agentes desconhecidos da esquadra do Martim Moniz; que ações ia a direção nacional da PSP tomar relativamente à queixa e aos agentes envolvidos; se a PSP dispõe de câmaras de vigilância dentro das suas esquadras; se a esquadra do Martim Moniz foi alvo de mais queixas por violência, abuso de autoridade, ofensa à integridade física, intimidação, coação, entre outros, contra agentes dessa esquadra; e, por fim, se tomou, nos últimos cinco anos, medidas disciplinares graves contra agentes da esquadra do Martim Moniz.

    “Os casos de tortura nas esquadras da grande Lisboa são conhecidos por todos: autoridades competentes, nas ruas, nos bairros”, disse ao Setenta e Quatro Lúcia Gomes. “Frequentemente há targeting a determinadas pessoas e, sobretudo, quando se tratam de comunidades racializadas acantonadas nos locais a que a lei chama de Zonas Urbanas Sensíveis”, acrescentou a advogada com experiência em casos de violência policial. 

    A advogada chega inclusive a dar como exemplo a esquadra da PSP do Bairro Alto, em Lisboa. “Histórias da esquadra do Bairro Alto com espancamentos com toalhas molhadas para não deixar marca, as sucessivas operações na estação do Rossio em que nenhum branco é encostado à parede e é a melanina ou o sotaque que ditam suspeições, as intervenções durante a pandemia e a estratégia de sempre: acusar as vítimas por resistência e coação, falsificando autos, e perpetuando esta prática”, denunciou. 

    Em 2020, o Comité Anti-Tortura (CPT) do Conselho da Europa recomendou às autoridades portuguesas que adotassem medidas firmes para prevenir violência policial e para que as denúncias fossem investigadas de forma eficaz, relatou na altura a Rádio Renascença. A delegação do Comité disse ter recebido um número considerável de “alegações credíveis de maus-tratos”, com estas a consistirem sobretudo em agressões com chapadas, socos e pontapés no corpo e na cabeça, aquando da detenção e durante a permanência nas esquadras. “O CPT conclui que os casos de maus-tratos pela polícia não são raros, não sendo apenas o resultado de alguns polícias incumpridores das regras e limites a que estão sujeitos na sua atividade”, lê-se na notícia.

    A recomendação parece ter sido acolhida pelas autoridades. Um ano depois, em 2021, o Ministério Público instaurou 334 inquéritos-crime por violência policial, mais 57% que em 2020, escreveu o Diário de Notícias. Não se sabe, no entanto, no que deram.

    A violência policial em Portugal foi ainda destacada no relatório anual de países sobre práticas de direitos humanos do Departamento de Estado dos Estados Unidos. “Houve relatos credíveis de uso excessivo de força pela polícia e de maus-tratos e outras formas de abuso de prisioneiros por guardas prisionais”, lê-se no documento. Com base em dados da Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) de 2021, o relatório avança que houve 1.174 denúncias de maus-tratos e abusos por polícias e guardas prisionais, o mais elevado desde 2012. Destas, 565 foram contra agentes da PSP e 353 contra militares da GNR.

    Os dias seguintes

    Na manhã seguinte, Rubens foi ouvido em tribunal e saiu em liberdade, voltando para casa. Só aí a sua mãe soube o que tinha acontecido no dia anterior. Houve duas preocupações imediatas: requisitar quaisquer documentos clínicos que ajudassem a esclarecer o estado em que o filho estava quando deu entrada no hospital e a entrevista de emprego no Gabinete de Empreendedorismo Social (GES) da junta de freguesia de Santa Maria Maior à qual Rubens havia faltado.

    Rubens conseguiu justificar a falta e acabou por fazer a formação para operador de armazém, não tendo sido, todavia, chamado para trabalhar. A entrevista e a formação eram passos essenciais no seu processo de reintegração social depois de ter estado quatro meses no Estabelecimento Prisional de Lisboa por roubar três telemóveis. Estava com pena suspensa por três anos e quatro meses.

    Onze meses antes da quinta-feira em que foi detido por agentes da esquadra do Martim Moniz, Rubens foi apanhado na Calçada da Estrela em flagrante delito, na madrugada de 4 de janeiro, com três telemóveis roubados. Tinha 17 anos, estava sozinho em Portugal e “tinha de fazer pela vida, não sabia o que fazer”, disse. Andava revoltado e a “abusar do álcool e da ganza”, não estava medicado, mas essa situação não atenuou a postura do juiz Carlos Alexandre em tribunal: ordenou que se calasse e decretou-lhe prisão preventiva pelo roubo dos telemóveis. Dois dias depois, Rubens entrou na prisão, saindo em abril do ano passado. Teve um bom comportamento nos meses em que esteve no EPL e, já em liberdade, estava a tentar endireitar a sua vida quando foi detido pela PSP.

    “Os juízes têm medo que, não prendendo, isso possa ser usado pela comunicação social para finalidades desagradáveis em relação ao Estado. Além disso, as prisões preventivas têm a ver com a ansiedade dos magistrados de serem tudo situações muito excecionais, tudo situações de grande alarme social, tudo situações de urgência”, disse ao Setenta e Quatro António Pedro Dores, sociólogo e professor universitário. O ex-ativista dos direitos humanos nas prisões garante que, até do ponto de vista da lei, “é fortemente desaconselhável que pessoas até aos 25 anos estejam presas, muito menos preventivamente”. Para mais quando foram diagnosticadas com ansiedade, depressão e hiperatividade, como foi o caso de Rubens.

    O que aconteceu com Rubens, continua, é “inconsistente com as recomendações”. “Existem recomendações, que não são lei mas meras recomendações, mas também existe jurisprudência que tem sido favorável a não se meter crianças na cadeia, por razões várias. Uma delas é a de sofrerem mais que outras pessoas”, explicou. Principalmente quando “o Estabelecimento Prisional de Lisboa é uma prisão preventiva e é das com mais fama de violência”.

    Desde cedo que o jovem brasileiro foi tido como “problemático” e colocado em instituições de acolhimento. Passou pela Casa Jovem Tabor, pela Casa Pia da Lourinhã e esteve quase para ir para a “prisão-escola” de Leiria.

    Os recontos de Rubens guiam-se pelas lembranças amargas de dias especiais: “passei três aniversários institucionalizado, dos 13 aos 15 anos”. Desde cedo que o jovem brasileiro foi tido como “problemático” e colocado em instituições de acolhimento. Passou pela Casa Jovem Tabor, pela Casa Pia da Lourinhã e esteve quase para ir para a “prisão-escola” de Leiria. Mas a mãe lembra-se de um outro Rubens, aquele que chegou a Portugal de mão dada consigo e que entrou no 1º ano a já saber ler e escrever.

    “Paguei escola privada no Brasil para que ele tivesse uma oportunidade”, afirmou Karina. Rubens fez amizades, integrou-se bem no novo país, ao início. Tinha seis anos. Cedo, todavia, começou o bullying violento e as ofensas, não poucas vezes racistas. “Lembro de ouvir uma criança, da idade dele, dizer para ele: ‘Rubens, a tua mãe é uma piranha’”. Começou a chegar a casa com histórias: batiam-lhe, isolavam-no, diziam-lhe que não podia ser amigo dos meninos brancos. Karina traça aí o início de uma história de discriminação e revolta que culmina com a prisão de Rubens naquela madrugada fria de janeiro.

    Deixou de se sentir integrado na escola e, aos 12, 13 anos, começou a faltar às aulas para ficar na rua com os rapazes mais velhos da sua zona, muitos deles imigrantes, a maioria negros, brasileiros, angolanos e cabo-verdianos. Era aí que se sentia acolhido. Também foi aí que começou a fumar: “parávamos perto de uma boca”.

    As faltas à escola chamaram a atenção dos serviços sociais, nomeadamente da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ). Mãe solteira, Karina trabalhava o dia inteiro, às vezes todos os dias da semana, a tomar conta de pessoas idosas e não conseguia acompanhar o filho como desejava. No fundo, teve de tomar uma decisão: conseguir dinheiro para se sustentar a si e a Rubens ou estar presente mas sem dinheiro. Ainda hoje se lembra dos contactos que teve com os serviços sociais: “não ofereciam ajuda, não perguntavam o que me faltava”. “Entraram em minha casa, revistaram tudo e abriram o frigorífico, sem sequer perguntaram se podiam ajudar”, recorda. Rubens foi-lhe tirado.

    Foi levado para o Centro Jovem Tabor, em Palmela, à espera de uma vaga na Casa Pia e em “regime fechado”. No seu aniversário decidiu fugir com mais dois rapazes. Chegou a Cascais, onde vivia com a mãe, mas deixou-se “andar fugido”. A mãe deu-o como desaparecido às autoridades, mas foi ela que o encontrou. Mais tarde, no mesmo dia, terá sido interpelado por agentes da GNR que andavam à sua procura. Passou a noite na esquadra e foi devolvido à instituição, de onde voltou a fugir algum tempo depois, só para voltar a ser apanhado, novamente pela GNR.

    Daí foi finalmente para a Casa Pia da Lourinhã, onde as condições eram melhores. “Podia estudar e davam-me uma semanada de sete euros e meio e se eu precisasse levavam-me ao hospital”, recordou. “Mas nunca consegui estar tranquilo, sempre fui problemático.” Apesar de sentir que havia melhores condições que em Palmela, tentou fugir duas vezes. Foi nessa altura que o pai biológico, em Belo Horizonte, no Brasil, pediu a guarda do filho. O tribunal de Cascais acedeu. Ficou lá quase dois anos.

    Em 2016, o antropólogo Anton Peter Zoettl publicou um estudo no qual encontrou “um grande número de relatos de abuso de força por parte da polícia” contra jovens racializados, imigrantes e/ou economicamente desfavorecidos. O investigador da Universidade do Minho entrevistou 35 adolescentes, rapazes e raparigas, entre os 13 e os 20 anos, de um centro de detenção juvenil em Lisboa e a maioria falou-lhe de detenções, interrogatórios e revistas regulares, aleatórias e sem razão aparente. Todos os jovens entrevistados por Zoettl tinham um histórico de pobreza, imigração, abandono escolar e/ou detenção em prisões ou centros de correcção juvenil.

    Rubens roubava telemóveis para os vender para peças em lojas da baixa de Lisboa. Foi apanhado com três e, na manhã seguinte, preso preventivamente. Passou quatro meses na prisão e saiu com pena suspensa por três anos e dez meses.

    Grande parte das visitas à esquadra incluía violência física e psicológica, desde chapadas e pontapés a “ordens para se despirem completamente em frente a guardas e outros detidos”, ou o uso injustificado de algemas e insultos e ameaças. Para Zoettl, essa violência é aplicada “como ‘técnica’ de investigação policial”, “forma de fazer os jovens respeitar e submeter-se à autoridade policial”, como “medida ‘educativa’” e, por fim, “como um fim em si mesma”. Esses abusos eram usados sistematicamente como castigo extrajudicial por parte de agentes da polícia, concluiu o antropólogo.

    Depois de uma temporada no Brasil, Rubens regressou a Lisboa já com 17 anos e a mãe vivia agora com um companheiro de nacionalidade alemã. Karina havia passado algum tempo em Frankfurt, onde aprendeu alemão e tirou uma formação de auxiliar de cuidados geriátricos, área em que trabalhava. Entretanto, voltou para Portugal. Rubens sentia-se a mais. As desavenças com a mãe agudizaram-se. O jovem fugiu, “ficou três ou quatro dias” fora de casa, e quando voltou os pertences da mãe já lá não estavam.

    Karina voltara para Frankfurt. Deixava o apartamento a Rubens — com seis meses de renda paga adiantadamente — e uma mensagem: “fui para a Alemanha, faz-te à vida”. Ficaram muito tempo sem falar, até à altura das festas. Karina e o companheiro insistiram que Rubens passasse o Natal com eles, mas Rubens passou essa semana sozinho, “no Terreiro do Paço, com uma placa de ganza e garrafas de uísque”.

    Alguns dias depois, Karina recebeu uma mensagem: “mãe, estou na esquadra”. Rubens roubava telemóveis para os vender para peças em lojas da baixa de Lisboa que não perguntavam de onde vinham os aparelhos. Dormiu uma noite na esquadra, a noite seguinte nos calabouços não sabe de onde. Não ouviu a sentença e quando o meteram de novo na carrinha que o havia trazido até ao tribunal não lhe disseram que ia preso.

    Entrou no Estabelecimento Prisional de Lisboa, foi apadrinhado por um recluso mais velho e inicialmente recusou-se a tomar a medicação que lhe davam, pois não sabia o que estaria a ingerir. Acabou por tomá-la, coercivamente e todos os dias: “entraram três guardas na cela e abriram-me a boca”. Eram seis comprimidos por dia. “Passava o tempo a dormir”: depois do pequeno-almoço, depois do almoço e depois do jantar. Em tempos de pandemia, tinha dez minutos de pátio — ou menos, conforme a vontade dos guardas — mas muitas vezes escolhia não ir. Tomava a medicação, encostava-se e dormia.

    “É comum darem medicação aos presos, para os porem zombies. Estamos a falar de psicotrópicos, medicação para doentes mentais. Uma das maneiras de os presos tentarem sair da tensão de estarem presos é dizerem que estão doentes, é sentirem qualquer coisa”, explicou António Pedro Dores. “A maneira mais prática para resolver o problema é dar-lhes uma coisa qualquer com que se entretenham e fiquem ali paralisados durante um tempo. É isso que eles [serviços prisionais] fazem de forma sistemática e organizada.”

    Karina percebia a mudança na voz de Rubens quando podia falar com ele ao telefone. “Acordava à hora do lanche”, descreve Rubens, “lia a minha Bíblia e dormia”. “Às seis, sete horas eles ligavam a água quente, tomava banho”, depois jantava, tomava os comprimidos e “meia hora depois já estava a dormir outra vez”. Foi a sua rotina durante as primeiras semanas.

    Depois passou a tomar medicação apenas quando a psicóloga indicava, mas outros reclusos eram obrigados. “Vi alguns serem amarrados para lhes darem injeções de largactil, que é um tranquilizante”, disse ao Setenta e Quatro. “Rapazes que já lá estavam há mais tempo diziam sobre outro: ‘se visses como ele era antes”, contou. “E dava para ver.” Reconheceu, inclusive, muitos antigos colegas da Casa Jovem Tabor e da Casa Pia, e lembra-se de ter conhecido outros reclusos que por lá também haviam passado. “Todos negros, mulatos, imigrantes.”

    Queixa-crime

    A 21 de dezembro do ano passado, a advogada de Rubens e Karina, Marina Caboclo, apresentou queixa-crime junto do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa contra agentes da PSP que detiveram o jovem brasileiro na Mouraria. Denunciou os crimes de ofensa à integridade física qualificada, abuso de autoridade, injúria, ameaça, coação, tortura, com emprego de método particularmente grave, designadamente de espancamento, e de dano. O Ministério Público abriu inquérito.

    Houve, no entanto, um crime alegadamente cometido dez dias depois de Rubens sair da esquadra de Moscavide: o de perseguição. Num domingo, por volta das 20h, 20h30, o jovem estava a atravessar a rua onde morava quando “avistou um agente da PSP, que se encontrava à paisana, mas cujo rosto o queixoso reconheceu, lembrando-se que no dia em que fora detido este agente lhe havia dito: ‘Lembra da minha cara que vais ver depois’”, lê-se na queixa. O agente terá ligado para um outro e, pouco depois, dois agentes se juntaram — Rubens acredita que estavam próximos do Banco de Portugal.

    “Revistaram-me no meio da rua”, disse Rubens. Revistaram-lhe as compras que trazia para o jantar, ordenaram depois que tirasse a camisola, baixasse as calças e as cuecas e, enfim, que descalçasse os ténis. Ficou nu e descalço na sua própria rua, segundo o próprio, sem qualquer razão, sentindo-se “como numa esquadra”, vexado e impotente. Tal como na esquadra, terão obrigado Rubens a desbloquear o próprio telemóvel e voltaram a vasculhar as suas mensagens e redes sociais. Entretanto, deixaram que voltasse a vestir-se. Perguntaram-lhe, disse Rubens, como tinham corrido as coisas no tribunal, se saiu de lá “na boa”, porque é que tinha ido ao hospital e se tinha feito reclamações a alguém. 

    Um deles viu um vídeo que ele tinha gravado à porta do tribunal e publicado no Instagram, com a legenda: “bófias de merda, olha como me deixaram”. Os polícias, continuou o jovem, deixaram-no ir para casa, mas, a 2 de dezembro, voltou a ser interpelado na rua, desta vez por agentes que desconhecia. Ainda não eram 11 horas da manhã e o jovem seguia pela Calçada do Combro em direção à Escola Secundária Passos Manuel, onde estuda a sua namorada. “Ouvi um carro a parar atrás de mim e uma porta a bater”, relatou Rubens. Olhou para trás e tentou esgueirar-se, dobrando uma esquina, mas foi agarrado no braço por um agente da PSP. “Tu é que és o Rúben?”, terá perguntado o agente – chamavam-lhe sempre Rúben. Rubens afirma que, em todas estas abordagens, foi sempre chamado de Rúben. “És não és? Anda ali falar comigo”.

    Revistaram-no, viram o que trazia na mochila. A caminho da viatura, Rubens perguntou porque é que o tinham de levar para a esquadra. “Temos de ver a tua permanência em território nacional”, terá dito o agente.

    Conduzido pela Travessa da Condessa do Rio até à esquina com a Rua da Hera, longe do corrupio da Calçada do Combro, o agente sacou do seu telemóvel e mostrou-o a Rubens: “tu é que és o puto da foto’”. Segundo Rubens, era uma fotografia dele algemado, tirada na esquadra do Martim Moniz.

    Revistaram-no, viram o que trazia na mochila. A caminho da viatura, Rubens perguntou porque é que o tinham de levar para a esquadra. “Temos de ver a tua permanência em território nacional”, terá dito o agente. Mas, assim que entraram no carro, o agente que o deteve virou-se para trás e ter-lhe-á dito: “Já sabes o que queremos, não é? Vais arranjar 50 gramas. Vá, chiba-te”. Rubens foi levado para a esquadra do Rato, onde voltaram a perguntar sobre o que teria dito em tribunal, que dissesse onde andavam “os rapazes da Praça das Flores”. E foi deixado sair duas horas depois, sem qualquer acusação.

    Terá havido mais uma aproximação dos agentes a Rubens. A 17 de março, o jovem voltou a ser detido arbitrariamente pela polícia, desta vez no Jardim Dom Luís, perto do Cais do Sodré, enquanto passeava a sua cadela ainda cachorra, a Lua, que entretanto adotou. Rubens relembra que estava no relvado, à beira de uma feira de rua que ali costuma acontecer semanalmente, quando reparou em dois carros da PSP estacionados junto ao Mercado da Ribeira.

    Decidiu atravessar a rua em direção a casa. Viu três agentes a correr na sua direção e reconheceu-os: um deles foi o que o agarrou, fora de serviço, na sua rua, outro era “o careca que conduziu a carrinha quando foram fazer as buscas a minha casa” e o terceiro um dos que o agrediu na esquadra do Martim Moniz. Terão começado por perguntar como estava e o que trazia com ele. Levaram-no para junto de um dos carros e começaram a revistá-lo. Só encontraram um telemóvel. Pegaram nele, atiraram o cartão SIM para o chão e procuraram o código IMEI: “vamos ver se é roubado, podemos ter aqui alguma coisa contra este gajo”.

    “Este caso tem uma característica muito preocupante: uma perseguição organizada e sistemática”, explica a advogada Marina Caboclo.

    Não era roubado. Entre tudo isto, ter-lhe-ão dito várias vezes que não seria preciso a sua mãe “ir fazer mais queixinhas”. Um jovem que passava num grupo terá reconhecido Rubens. Decidiu fazer um vídeo para lho enviar depois. Na legenda do vídeo, a que o Setenta e Quatro teve acesso, lê-se: “estavas bem acompanhado hoje”. O jovem aproximou-se e falou com Rubens, tendo dito que ficaria ali a testemunhar o que se passava. Os polícias meteram-no então dentro do carro junto com a sua cadela. “Temos de ver a tua permanência em território nacional”, disseram-lhe já dentro do carro, uma vez mais.

    A queixa que a sua advogada interpôs pede às autoridades que recolham inúmeras provas, entre as quais a escala de turnos da esquadra do Martim Moniz (17 e 27 de novembro) e a do Rato (2 de dezembro), mas também a recolha de imagens de videovigilância onde foi detido naquela quinta-feira.

    O objetivo da queixa-crime é apenas um: “a responsabilização dos agentes da PSP por uma conduta que, apesar de não ser incomum, configura abuso policial racista”, disse ao Setenta e Quatro a advogada de Rúbens e Karina. “Este caso tem uma característica muito preocupante: uma perseguição organizada e sistemática. Não existe em todos os casos [de violência policial]. Há uma reiterada abordagem à mesma pessoa pelos mesmos e outros agentes”, salientou Marina Caboclo, referindo não ter dúvidas de a motivação ser “ódio racial”.

    Por lapso, Rubens Gabriel Prates deu entrada no hospital oito horas depois de ser levado para a esquadra da PSP no Martim Moniz e não seis, como inicialmente escrito.

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  • Casas Para Viver!

    Livestream da PT Revolution TV

    https://www.facebook.com/ptrevolutiontv.live/videos/6346804172072759/

    Reivindicações por um programa político que resolva efectivamente a crise da habitação

    Concentração – Dia 22 de Junho às 18h no Largo de Camões (Lisboa)

         O programa + Habitação não resolve nenhum dos problemas de quem vive e trabalha em Portugal. Ao invés, este programa acentua a tendência de especulação, colocando os contribuintes a pagar os lucros de senhorios e proprietários, quer seja pelo aumento dos valores especulativos, seja pela via da transferência de dinheiros públicos para suportar estes mesmos lucros. Não aceitamos!

         Achamos que a propriedade privada não pode expropriar o direito à habitação e a uma vida digna. As casas têm uma função social: serem habitadas! A plataforma Casa para Viver exige que o Governo e a Assembleia da República tomem medidas sérias para travar a especulação imobiliária e cumprir o direito à habitação previsto no artigo 65º da Constituição da República Portuguesa.

         Assim, um programa que vise resolver os actuais problemas no acesso à habitação tem que conter antes de tudo mais:

    1 – Fim dos despejos, desocupações e demolições sem alternativa de habitação digna que preserve o agregado familiar na sua área de residência;

    2 – Baixar as rendas e fixar os valores indexando aos rendimentos dos agregados familiares, nunca excedendo os 20%; 

    3 – Garantir a renovação automática dos actuais contratos de arrendamento habitacional;

    4 – Fixar o valor das prestações dos créditos para primeira habitação no valor da prestação paga em Junho de 2022, sem compensações públicas à banca;

    5 – Revisão imediata das licenças para especulação turística: alojamentos locais, hotéis e apartamentos turísticos;

    6 – Com o objectivo da coletivização das casas vazias das empresas imobiliárias, fundos de investimento e grandes proprietários, queremos a publicação até ao final de Novembro de 2023 de uma listagem dos imóveis devolutos: propriedade do Estado (administração directa, indirecta e sector empresarial) em não utilização; propriedade privada devoluta.

    7 –  Fim real dos vistos gold, do estatuto do residente não habitual, dos incentivos para nómadas digitais e o fim às isenções fiscais para o imobiliário de luxo e para as empresas e fundos de investimento.

    https://www.casaparaviver.pt/

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  • Be Queer, do Crime! Comunicado do Bloco Autónomo da Marcha do Orgulho LGBTQIA+ de Lisboa

    Somos um grupo de pessoas e coletivos autónomos que querem recuperar o sentido político e combativo da Marcha do Orgulho, unir forças e reivindicar o nosso espaço. Estamos cansades do clima vigente nas últimas marchas e manifestações, onde a nossa identidade é cada vez mais comercializada e a linguagem comodificadora e apaziguadora. Não queremos ser absorvides pelo capital, não queremos promessas vazias vindas de quem jura proteger-nos enquanto nos violenta. Não queremos defender instituições que nos oprimem.

    É a nós que todos os dias nos matam ou nos tentam assimilar, sem nunca aceitar a nossa verdadeira essência e dissidência. No passado éramos patologias, hoje, consideram-nos modas e manias. A autoridade ocidental desde muito cedo impôs os seus padrões raciais, étnicos, religiosos, de género e sexualidade e isso é ainda hoje vigente numa cultura ocidental de violência naturalizada. Os movimentos de libertação, incluindo Stonewall, não foram o fim de uma luta, pois continuamos a vivenciar todos os dias essa violência e a dominação nos nossos corpos. Nascemos das pessoas mais marginalizadas, das trans, das migrantes, das pobres, das resistentes ou simplesmente dos meios que nos oprimiram a partir do momento em que nos mostrámos dissidentes.

    É ainda nos espaços que pensamos serem seguros que somos excluídes pelas pretensas de um biologismo mainstream. Negam-nos o acesso a condições básicas como a saúde e à habitação, negam-nos o acesso ao emprego e aos espaços culturais. Somos empurrades para a marginalidade, para o encarceramento pela nossa não conformidade com o normal social, especialmente quando também somos migrantes, putas, pessoas racializadas e de classes mais baixas. São estas mesmas estruturas que nos dias do “Orgulho” saem à rua para virem vender a sua bondade mascarada e no dia a seguir nos voltam a espancar nas suas casas e estabelecimentos.

    É por isto (e muito mais) que marchamos juntes contra este cis-tema patriarcal, mono-heteronormativo, capitalista e autoritário asfixiantes. Contra a tentativa de coptação da luta queer de rua pelos partidos políticos. Contra o assimilacionismo e a comercialização dos nossos corpos. Contra o corporativismo das marchas. Contra os patrocínios das mesmas organizações e empresas que nos violentam diariamente, que nos negam o acesso à saúde, que nos despejam, que nos despedem, que nos agridem. Marchamos contra o sistema colonial, que nos impôs o binário e contra a instituição católica, que sempre violentou pessoas queer. Contra a masculinidade hegemónica que persegue mulheres e tudo o que se aproxime da visão do que é o feminino.
    Marchamos contra todas as prisões e fronteiras e contra qualquer forma de privação de liberdade, criadas pelos estados como centros de extermínio necessários para o afastamento da comunidade de todas as subjetividades consideradas não funcionais ao sistema capitalista e à hetero-normatividade.

    Temos raiva, não temos orgulho e por isso viemos ocupar o espaço a que temos direito. Estamos aqui para criar o caos, enquanto a mono-cis-heteronormatividade capitalista e autoritária não for abolida. Apelamos a que sejam sempre desobedientes, e que saiam à rua não para desfilar, mas para contra-atacar toda a violência a que os nossos corpos e mentes são submetidas. Ninguém é livre enquanto não formos todes livres.

    https://escrever.coletivos.org/s/Syllcf9P2#

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  • Acampamento em defesa do Barro 2023-06-18 14:28:46

    Bem-vindo!

    Lançamento do novo site da acampada em defesa do Barroso '23.

    Aguarda o anúncio nas redes sociais da abertura das inscrições!

    barrososemminas.org

    Segue-nos no mastodon/fediverse:
    social.coletivos.org/@barrosos

    Peertube: videos.coletivos.org/video-cha

    Fonte:
    barrososemminas.org/2023/06/13

  • Acampamento em defesa do Barro 2023-06-18 14:05:04

    Portuguese villagers on front line of energy battle with China

    “We’re separated from the rest of the country by the Serra do Marao range, far from the big cities," … “We have a saying: Beyond Marao, those who live there rule.

    Yet these hills are now the front line of Europe’s battle to catch up with China and the United States in the global rush for , the element essential to make electric-car batteries.


    thetimes.co.uk/article/69e74b7